Contos e cantos… Pivetim, de Délcio Teobaldo

Na última segunda-feira, dia 07 de dezembro, a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) anunciou os vencedores das artes brasileiras de 2009, nas categorias Teatro, Cinema, Rádio, Literatura, Música Popular, Música Erudita, Artes Visuais, Teatro Infantil e Dança. Na categoria Infanto-Juvenil, o livro premiado foi Pivetim, de Délcio Teobaldo e lançado pela Edições SM.

Pivetim mostra o cotidiano de um grupo de meninos de rua sob o ponto de vista da criança, o  Pivetim do título, que se mostra como qualquer garoto de sua idade: com medo de crescer e precisando do afeto e da compreensão de seus companheiros, vivendo entre a realidade e seus sonhos de menino.   

Décio Teobaldo é jornalista, produtor, editor e diretor de cinema e televisão, artista plástico, etnomusicólogo, escritor, músico. Neto da batuqueira angolana Eva Paulina de Jesus, da cirandeira portuguesa Angelina Maria dos Santos e do caboclo contador de histórias, Luiz Sabino Soares; filho da camponesa e benzedeira, Maria Luzia e do dançador de caxambu e caboclinho, José Teobaldo, Délcio nasceu e cresceu em Ponte Nova, Zona da Mata mineira, ouvindo ladainhas, congadas, fulôs, cantos de calamboteiros e de lavadeiras.

Desse universo, Délcio deu forma a sua carreira e marcou muitos de seus trabalhos. Seus trabalhos escritos,  são:  Geração Bate-Bute (Copy & Arte Editora, 1993 – Contos); Telintérprete – O jornalista entre o poder e o público (Litteris, 1995 – Ensaio); Isto é coisa da idade; Palavra puxa prosa e Quatro trancados no quarto (Miguilim, 1995, 2000 e 2003); A filosofia das tradições afro-brasileiras, com Muniz Sodré, Roberto Moura e Pedro Moraes (EdUFF, 1998), e o primeiro romance, Pivetim.

Délcio produziu e dirigiu diversos documentários, incluindo: Morre congo, fica congo – Curta-metragem com os últimos cantadores do Jongo Rural de Angra dos Reis (DGT Filmes, SP, 2001)  e  Infância Limitada, terceiro colocado na BBC de Londres e prêmio de melhor direção em 2002.

“Morre Congo, fica Congo”, (Die Congo, remain Congo).                             DGT Filmes. 2001, DV, 15 minutos, cor, legendado inglês.                                Délcio Teobaldo, pesquisa, argumento, roteiro final e direção geral; Toni Nogueira, diretor de fotografia; Jorge Pessano, roteiro; Nair Borges, produção; Guará Rodrigues e Marco Túlio, som direto; Otávio Costa, edição; Badu Nogueira e Thiago Teobaldo, assistentes.

 “Ladainhas, rezas e ofícios de fé e de cura…”                                            DGT Filmes 2004, DV, 27 minutos, cor.                                                                     Délcio Teobaldo, pesquisa, roteiro, produção executiva e direção geral; Toni Nogueira, diretor de fotografia e câmera; Maurício Falcão, som, luz e edição; Gabriel Góes, mixagem de som; Thiago e Felipe Teobaldo, assistentes de produção.

“Cantos de Calamboteiros”.                                                                                          DGT Filmes . 2007, DV, 27 minutos, cor.                                                                  Délcio Teobaldo, pesquisa, argumento, produção executiva e direção geral; Toni Nogueira, diretor de fotografia e câmera 1; Maurício Falcão, edição; Nicodème de Renesse, som direto; Nathalie Joiris, assistente técnica; Virgínia Siqueira, coordenação de produção; Ricardo Motta, coordenador de produção local; Paulo Henrique de Carvalho, produção; Felipe Teobaldo, assistente de produção e câmera 2; Milena Campos, assistente

 

Quem é Délcio Teobaldo?

Quando completei 15 anos de idade, meu pai me levou para fazer a carteira de trabalho. A atendente me perguntou qual era minha profissão. Disse, “artista”. Ela riu, perguntou se não era muita pretensão e anotou: estudante. Quando cheguei em casa escrevi de arte, na frente da palavra estudante. Rasurei a carteira, mas ali já estava clara a relação que manteria com mundo; com o poder, enfim, com as pessoas, a partir de uma maneira de pensar que se afastasse o máximo possível do óbvio; que buscasse a estética, no que esta ciência possui de mais nobre, pois traz em si a palavra ética. Beleza e moral não se separam; nem arte e cidadania; muito menos o artista e o arteiro que teimo ser, quando me expresso na música, no jornalismo, na literatura, no teatro, nas artes plásticas…

Délcio, desde a infância você está cercado por manifestações populares como rezas, ladainhas, jongo e caxambu. E hoje, você também é conhecido por diversos filmes e documentários sobre esse tipo de tradição oral. Conta um pouco sobre esse trabalho.

Tive a sorte de nascer e ter sido criado numa família bem estruturada, com avós por perto, pais, tios, irmãos. Ponte Nova, cidade da Zona da Mata mineira, na década de 1950 tinha uma economia açucareira muito forte e, naturalmente, possuía um em torno de folias baseado em doces, cantos, contos, onde o sagrado e o profano viviam e festavam juntos. Herdei esses saberes e sobre eles acrescentei os que adquiri com minha própria experiência. Na verdade, minha literatura nada mais é  que os contos ouvidos dos meus antepassados, contextualizados ao que vivo; da mesma forma, meus três primeiros documentários, a trilogia “Morre Congo fica Congo”,  “Ladainhas e Ofícios de fé e de Cura” e “Cantos de Calamboteiros” (www.dgtfilmes.com.br) remetem os olhares e a memória à minha avó Eva, negra senhora das candongas e Caxambus; à minha avó Angelina, portuguesa católica apostólica romana e à minha mãe, camponesa, benzedeira, bordadeira, atriz, cantadora, com quem conheci essas culturas todas por dentro.

Pivetim, é seu primeiro romance, mas não é seu primeiro trabalho como escritor. Como foi a experiência de escrevê-lo?

Pivetim é o oitavo livro de uma produção intelectual, basicamente de ensaios e três obras dirigidas ao público infanto-juvenil. Daí é fácil perceber que ele não nasceu de um exercício metódico de pesquisa; de focar um tema e gestá-lo com todos os cuidados, dores e prazeres que quaisquer criações exigem e provocam. Pelo contrário, Pivetim nasceu no tranco; no dia a dia de uma redação de TV (programa Supertudo, 2004, dirigido pelo Pedro Paulo Carneiro), onde eu era Editor Executivo e criei um menino que trafegava no mundo dos adultos e das crianças, cruzando seus pontos de vista. Na prática, arranjar um repórter mirim pra desempenhar esse papel era impossível. Escrevi cinco situações em que este moleque, já batizado de Pivetim, poderia atuar. Essas cinco situações são, exatamente os cinco capítulos iniciais do romance: “Caô”, “Fome”, “Comuna”, “Craque Quente” e “Pipa Voada”. Foi um nascimento espontâneo e só senti que este moleque tinha corpo e alma quando ganhou a quarta edição brasileira do Prêmio Barco a Vapor, em 2008 (www.edicoessm.com.br). Posso dizer que as opiniões a respeito de Pivetim é que me têm dado a real noção de que era vital escrevê-lo.  

Pivetim pode ser qualquer um. Mas ao invés de falar desse menino, é ele quem toma as rédeas da história no livro. Dar voz a essas crianças que foram deixadas à margem da sociedade, é um caminho para que elas saiam do anonimato e tenham um futuro longe da violência que vemos na televisão?

Esta pergunta daria um ensaio, pelos desbramentos possíveis, mas vamos especular apenas um: a identidade de Pivetim que, pela universalidade de seus sentimentos (quando conversa com a fome; critica a  moral do mundo adulto; ironiza a TV, na maneira com que ameniza as relações sociopolíticas), realmente mostra que a criança não é um adulto em miniatura; não é um projeto de homem; pelo contrário, possui emoções e mobiliza ações próprias. Este perfil do Pivetim foi construído com um certo critério que revelo agora: a trama do romance tem várias citações da cultura clássica e de massa como “O gigante egoísta”, de Oscar Wilde; “Peter Pan”, de James Matthew Barrie; “Joãozinho e Maria” dos irmãos Grimm e “Superman”, de Joe Shuster e Jerry Siegel. Isto chamou a atenção de uma amiga minha, a professora doutora Luisa Ribeiro de Lambeth (www.lambeth.uk.org), que está negociando com a Editora SM a publicação do romance em Londres. Também contribui pra universalizar o personagem a capa assinada pelo grafiteiro Speto (www.speto.com.br). Então, Pivetim possui uma carga emocional muito grande; carrega uma herança tão diversa e rica quanto a minha e o fato de misturar a linguagem de rua com algumas “tiradas” filosóficas, é para deixar o leitor na dúvida se ele sobreviveu a tudo e fala como adulto; escreve as suas memórias ou é tão sabido que mantém um pé no mundo adulto e outro no infantil, para mostrar que tem domínio sobre os dois. Não arrisco nenhum palpite. Pivetim me surpreende tanto quanto aos que o conhecem.

No mês passado houve a terceira edição do projeto Jongá Cantos de fé, de trabalho e de orgia, na Caixa Cultural. Quais foram as conquistas desse projeto nesses três anos?

Jongá é um projeto que vem crescendo com o tempo. Antes de ganhar o primeiro edital de ocupação da Caixa Cultural, em 2005, ele já vinha sendo construído cinco anos antes, em 2000, quando ainda produzia o documentário “Morre congo, fica congo”, sobre o jongo matricial de Angra dos Reis e voltava o primeiro olhar pros meus ancestrais. Então, Jongá já veio definido com um espaço que revela o Brasil profundo. Ali já se apresentaram, entre outros, os jongueiros de Sapezal do Cunha (SP), as cantadoras de canavial (MG) e este ano, os cirandeiros de Tarituba (RJ). Jongá cria a possibilidade de diálogo entre essas culturas orais-ritmicas, num espaço privilegiado. Pra entender Jongá é preciso ter percepção histórica (pois essas culturas são, além de patrimônio, um moeda que movimenta um mercado consumidor poderoso); e sensibilidade social (pois essas culturas aproximam as pessoas; restabelecem e fortalecem as relações intergeracionais e desenham o projeto de nação com que o Brasil vem sonhando desde sempre). Até agora, a Caixa Cultural tem tido esta percepção.

Como você vê as gerações futuras tão ligadas a informática e as novidades tecnológicas diante de tradições centenárias como o jongo e o caxambu? Você acha que é possível integrar tecnologia a essas tradições?

Tambor calado (percutido com as mãos); escavado em tronco e, como a árvore de que foi feito, deve se plantar e reinvindicar o chão sobre o qual de assenta. Um tambor que não aceita cortejo; que não vai, traz; que não grita, chama. Assim são os Jongos (no plural porque o chão é o mesmo, mas os frutos que produzem são diversos) e os Caxambus, dois nomes dados à mesma cultura: fala-se Jongo no Estado do Rio de Janeiro e Caxambu, nas Minas Gerais. Uma cultura, cuja matriz é a palavra, o verbo. Os velhos me reconhecem como Cumba (o feiticeiro da palavra; o mestre que ensina os mestres); por respeito a eles, aceito o carinho. Dizem isso, mesmo sabendo que tenho uma vida profissional ligada e uma mídia dúbia, fascinante, influente, responsável como a TV. Talvez, aí esteja o dever estético e ético, de devotar ao tambor caxambuzeiro (que agrega, respeita e instrui os seus), o mesmo sentimento que devoto à criação, redação, produção, direção e edição de uma peça promocional para a televisão ou para o cinema. Como ensina este Ponto (estrofe improvisada nas rodas de Caxambus ou Jongos): “Casca de coco só deve catar/quem sabe que a água vai jorrar”. Ora, a esperança, expectativa e construção do novo, do contemporâneo, é um exercício diário de escavação de fragmentos; de busca e reconhecimento dos valores da tradição.

Quais são os planos para o futuro, agora que Pivetim ganhou o prêmio da APCA?

Levo um tempo, razoavelmente longo, pra absorver um prêmio. Mal me acostumava com o Barco a Vapor e a Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) me surpreende ao apontar Pivetim como a melhor obra infanto-juvenil publicada em 2009. A importância do APCA é que, agora, os olhos dos leitores, tanto quanto os da crítica e das editoras vão observar e exigir mais rigor nos meus textos. A premiação será no dia 6 de abril, no Sesc Pinheiros (SP). Até lá ou pós-prêmio, devo ter em mãos mais algum texto (um novo romance? Uma novela? Um ensaio?) para satisfazer curiosidades. Estou trabalhando nisso. 

A entrega do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes acontecerá no dia 06 de abril de 2010, em São Paulo e vocês saberão de mais novidades sobre Pivetim e Délcio Teobaldo aqui no nosso blog.

 

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3 respostas em “Contos e cantos… Pivetim, de Délcio Teobaldo

  1. Magnifico e entusiasta fico ao ver que nosso conterrâneo DÈLCIO TEOBALDO segue sua carreira,diria até ´´sina de gosto“ num ritmo dele,próprio,tranquilo e simples como o é.

    Fico mesmo ´´arrepiado´´quando a cada vez lançando na WEB me vejo sentindo o que um artista da terra sente e eleva sua imagem na cultura e educçaõa num resgate exponencial das ´´coisas da terra e do povo“.

    Quem premia e dá méritos é a Critica e Mídia ai instalada e sempre contribuindo proativamente com este paizão nosso,mas o aratista é quem faz mesmo.

    Parabéns….

  2. Pingback: Tweets that mention Contos e cantos… Pivetim, de Délcio Teobaldo « TV GERAÇÃO DIGITAL -- Topsy.com

  3. Um dia quando chegava na empresa fui chamado para conhecer o novo jornalista Délcio Teobaldo que começava a fazer parte da equipe da Assessoria de Comunicação.
    Levei-o para conhecer as dependências da TV; ele curioso, contemplava com aquele olhar de mineirinho tudo o que via.
    Penso que ele indagava que “trem” era aquele onde acabara de entrar ? (E dele, nunca mais sairia, tornando-se mais um dormente de sustentação para os trilhos. )

    Délcio saiu de Ponte Nova com seu HD carregado de saberes e veio trabalhar na TV;era como se estivesse esperando uma chuva estiar.
    Todos os dias contava estórias, que eu gostava de ouvir, e
    sonhava em escrever contos infantis.Aliás,ele sonhava grande e partiu para o aprendizado básico de cinema, realizando seus primeiros projetos.
    Em cada fotograma expressava sua personalidade e imprimia seu estilo; no som de suas músicas vinha anexada a sonoplastia do seu sangue pulsando nas veias. Até hoje ainda é assim…o coração dele bate no ritmo do angoma.

    NAQUELE TEMPO, as multidões perguntavam a João: “Que devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” (Lc. 3,10)

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